sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Rubens Gerchman (1942-2008)



A morte de Rubens Gerchman me fez pensar no quanto nós, jovens (artistas) brasileiros, não nos lembramos e nem damos muito valor à arte brasileira dos anos 60, mais característica pela Nova Figuração. Hoje encontramos muitos novos artistas brasileiros em que as questões sócio-políticas estão presentes em suas obras, mas que sequer ouviram falar de nomes como Cláudio Tozzi, Antonio Dias, Antonio Henrique Amaral, João Câmara e até o próprio Gerchman.

Abaixo vou transcrever um trecho da reportagem do Antonio Gonçalves Filho do Caderno 2 do Estadão do dia 30 de janeiro último.

Há exatos 40 anos ele foi cantado em prosa e verso por Nara Leão no disco-manifesto do movimento tropicalista, Tropicália (ou Panis et Circensis). Era um bolero, Lindonéia, composto por Caetano Veloso e Gilberto Gil em homenagem a uma tela de mesmo nome pintada dois anos antes, A Bela Lindonéia (1966), também conhecida como Gioconda do Subúrbio, de autoria do artista carioca Rubens Gerchman. Lindonéia fazia referência direta à ditadura militar brasileira, falando de pessoas desaparecidas, cachorros mortos nas ruas e vigilância policial. Gerchman, um dos artistas da Nova Figuração ao lado de Antônio Dias, cujos trabalhos dialogavam com a realidade política dos anos 1960, morreu ontem, aos 66 anos, às 6 horas da manhã, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, em decorrência de um tipo raro de câncer. Ele foi cremado ontem mesmo no Cemitério de Vila Alpina.

Gerchman foi marcado pelo programa da Nova Figuração, que levou a modernidade artística às revistas brasileiras nos anos 1960, numa época em que essas publicações ainda usavam as cores de maneira antiga e pouco criativa. Em plena ebulição do movimento pop mundial, dos festivais de rock e da swinging London retratada por Antonioni em Blow Up, a resposta brasileira à representação da nova realidade urbana foi um movimento agressivo que fez uso de cores fortes e materiais industriais, trocando a tinta a óleo pela acrílica e a fatura artesanal pela reprodução de imagens populares icônicas.

O discurso, na época, era eminentemente político. No mesmo ano do golpe militar, Antônio Dias agregou, na obra Vencedor? (1964), um capacete do Exército a um cabide de pé com as cores da bandeira americana. Gerchman, em resposta ao regime, pintou misses, times de futebol e retratos de desaparecidos, contrapondo alienação popular e engajamento político.

Pintor, desenhista, gravador e escultor, Gerchman começou a estudar arte há exatamente meio século. Tinha 15 anos quando freqüentou seu primeiro curso e 25 ao receber o primeiro grande prêmio, no 16º Salão Nacional de Arte Moderna (1967). Foi com esse prêmio que o artista viajou para os Estados Unidos, no mesmo ano em que participou da histórica exposição Nova Objetividade, no MAM do Rio. Gerchman permaneceu nos EUA até 1972. De volta ao Brasil, realizou filmes experimentais, ajudou a criar a revista de vanguarda Malas Artes (1975-76) e dirigiu a Escola de Artes Visuais do Parque Lage (1975-79), no Rio, que virou reduto da arte experimental.

Desde o começo de sua carreira comprometido com novas experiências, foi um dos pioneiros a realizar happenings. Num deles (Elevador Social), ainda nos anos 1960, colocou os espectadores numa tenda de madeira e plástico transparente, pintada do lado de fora com spray colorido. Presos momentaneamente na 'jaula', eles tinham de arrebentar a estrutura para se libertar. Em outra instalação, Fruta-Abrigo (1967), ele criou 'caixas de morar' em vime e PVC com frestas de observação, feitas sob medida para paranóicos. As obras dessa época, francamente marcadas pelas turbulências políticas, refletem a frustração de cidadãos reprimidos pelos atos institucionais do regime militar. Gerchman recorria a metáforas nessas proto-instalações, mas usava imagens imediatamente reconhecíveis nas telas, como torcedores de futebol e placas de obras, abusando deliberadamente da cultura visual kitsch alimentada pela pintura popular. Como reforço, ainda incorporava frases irônicas às pinturas e relevos, como 'Assegure seu futuro' (1967) numa tela em que os rostos dos deserdados sociais descartam essa possibilidade.

As obras sociais dos anos 1960 deram lugar a trabalhos mais intimistas na década seguinte. A contestação raivosa foi trocada por um trabalho mais autobiográfico, repleto de referências familiares e memórias sentimentais da juventude. Finalmente, nos anos 1980, após desenhar azulejos para o restaurante do Sesc Pompéia a convite da arquiteta Lina Bo Bardi (em 1981), Gerchman dedicou-se a uma série de obras de natureza erótica. O mercado tem alguns livros publicados sobre o artista, entre eles o de Wilson Coutinho e o de Fábio Magalhães, o último lançado há dois anos pela Lazuli.

3 comentários:

Alexandre Teles disse...

Ae Carlão! Bom ver esse blog em movimento de novo ein!

Aquele abraço!

Alexandre Teles disse...

tá loco... não elogio mais também.

Unknown disse...

Oi Cho, demorou mas eu apareci pra ler seu blog. ADOREI!! Podia ficar horas lendo, mas eu descobri que você mente.... me falou que ía postar aquele barzino que nós fomos e não achei! Beijos